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De mãe para mãe

Quando se vai à cidade, tem que passar na igreja e rezar. Assim fiz. Entrei naquela grande matriz que parecia desproporcional à cidade tão pequena. Fiz a vênia diante do altar e dirige-me à capela do Santíssimo. Entrei, fiz a genuflexão e ajoelhei. Enquanto rezava, via aquela mulher com uma criança ajoelhada ao seu lado. Parecia uma mulher adulta, provavelmente tinha de 30 a 40 anos. Ela rezava o terço da Misericórdia. Que boa escolha! Em meio à pandemia que vivemos do Coronavírus, nada melhor do que pedir misericórdia ao Senhor. Mas algo tocou meu coração. Enquanto ela rezava, a criança sempre repetia as últimas palavras da oração como um eco, um eco espiritual. Não sei se aquele menino sabia rezar, mas vendo aquela mulher, que provavelmente era sua mãe, com certeza estava motivado. Ela rezava e ele ecoava. Vez ou outra a criança olhava para um lado e para outro, distraída com outras coisas, mas continuava seguindo a mãe na oração. De repente, a mãe fixou os olhos no sacrári...

Lava-pés

O gesto inclinado Simples curvatura Grande dignidade Ao lado, uma jarra e bacia Uma grande mesa de quatorze lugares Uma vela silenciosa crepita Olhares confusos e cruzando-se na sala - O que ele está fazendo? Pensam no silêncio do coração O som da água sendo derramada Lá fora, uma noite fria, envolvida por preto vestido Um vento discreto sussurra As cortinas amareladas são suavemente embaladas E ali, inclinado no chão Segurando pé por pé Um Deus/Homem lava Toca o chão e derrama água Acaricia os pés Concede-lhe um ósculo Olha nos olhos e sorri - Agora está limpo, pode partir! Emanuel Tadeu

Aquele que tudo vê

(Imagem da internet)                            Outro dia, ao conversar com uma pessoa, ela fez um sarcasmo quando diante de uma preocupação eu disse que Deus providencia tudo para seus filhos. A referida senhorita disse-me ironicamente: “mas é claro, Ele está vendo tudo !” e apontou o dedo para o alto. Senti em sua fala aquela crítica advinda de uma visão de Deus representada pela imagem do olho que tudo vê, como Aquele que tudo enxerga para condenar e castigar as suas criaturas caso desviem do caminho correto. Pensei em como aquela mulher tinha uma visão equivocada de Deus, talvez, não por culpa dela, mas pelo modo como aprendeu a olhar para Aquele que a criou.             Alguém pode me indagar se concordo com a imagem de Deus que tudo vê a qual remete a onisciência e onipresença divina. Digo que concordo plenamente. Sim,...

Perdão, Pessoa

Peço perdão, ó grande Fernando Pessoa, Mas não consigo concordar Inquieto a pensar Depois de muito refletir Pela fé que possuo posso proferir: Vale a pena? Não, nem tudo vale a pena se a alma não é pequena. Emanuel Tadeu

Um coração cansado de esperar

Um coração cansado de esperar E decidido a perseverar Alegra-se ao encontrar um semelhante para partilhar Afinal, fomos feitos mesmo para amar. E nas voltas da vida iremos nos encontrar. E então, a alegria brotará da sua escolha em esperar. Durante este período O orgulho insiste em nos visitar Trazendo a ideia de que já sei o suficiente e estou pronta para lhe encontrar As lágrimas escorrem por não sabermos lidar Com a angústia e a pressa do que o amanhã trará E assim passam anos, séculos, nos quais encontramos pessoas para nos ajudar A perseverar e crer que o amanhã logo virá. Adriana da Silva Ribeiro

Tríade poética sobre a Morte

(Imagem: Arquivo pessoal) Arcanos da Morte Desinquieta criatura Caminha sem um ritmo Vaga no mundo Anda sem destino. Ó Morte, onde estás? Por onde andas? Qual o próximo lugar? Onde vais pernoitar? Por que nos leva sem avisar? Qual motivo de tal crueldade? Estava há pouco ali Agora não mais sorri. Não és tua a culpa Mas tão somente nossa Pois não sabemos conviver Choramos amigos Os quais não tivemos tempo de rever. Abraços não dados Sorrisos não correspondidos Perdão não consentido Coração arrependido. Perdoa nossa dureza Que nos encontre preparados Leva-nos a Deus Alegria de Filhos amados. Ó Morte, nossa irmã Não assustas tanto Quem vive de acordo Com o saber santo. Descansa em paz! No suave adormecer Espero, um dia, tua visita Descalço em meu ser. Memento mori  A morte mora ao lado É uma vizinha Mora na casa ...

Conversão

Coloquei-me no caminho Comecei a caminhar Aos poucos, mudo a direção Embrenho em outros desvios Às vezes conscientes Outras vezes nem tanto. De repente, percebo que tomei rumo equivocado Posso continuar Mas resolvo voltar ao caminho certo Passo por cima de meu orgulho Embora muitas vezes isso me incomode Retorno Encontro novamente a estrada correta Volto a caminhar. Se vou desviar de novo? Talvez sim, talvez não Mas nunca vou desistir de trilhar tal rumo Se errar? Peço perdão Retorno ao caminho E agora estou na direção certa de novo. Emanuel Tadeu